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O QUE TINHA DE SER
Porque foste na vida a última esperança Encontrar-te me fez criança Porque já eras meu, sem eu saber sequer Porque és o meu homem, e eu tua mulher
Porque tu me chegaste Sem me dizer que vinhas E tuas mãos foram minhas com calma Porque foste em minh'alma como um amanhecer Porque foste o que tinha de ser
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Vasculhando ontem a net descobri esta música,que não conhecia. Linda, na voz da Maria Betânia.
Escrito por Adoradora às 17h46
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SAÚDE MENTAL
Rubem Alves
Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especial ista no assunto. Eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maikovski suicidou-se. Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido complemente esquecidos.
Mas será que tinha saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao coman do do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado, nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa... Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse es tresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pela ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas. Sinto que meus pensamentos podem parecer pens amentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra se denomina software, "equipamento macio". O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparecolho é feito. O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos, que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssima s, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem. Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeito no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave-de-fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das pertubações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas. Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano, tem uma pecularidade que o diferencia dos outros: o seu "hardware", o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e acessórios, o hardware, tenha a capacidade de ouvir a música que ele toca, e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta, e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei, no princípio: a música que saía do seu software era tão bonita que o seu hardware não suportou.
Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias. Opte por um soft modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahams e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o roque pode ser tomado à vontade. Quando às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por q ue se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato. Seguindo esta receita você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão ba nal ela é. E, ao invés de ter o fim que tiveram os senhores que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram.
Rubem Alves - escritor, educador e contador de histórias. Escreveu, entre outros, "Livro sem Fim" (Edições ASA), publicado em Portugal, e "Se Eu Pudesse Viver Minha Vida Novamente..." (Verus).
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Este texto me fez pensar. Gostei, identifiquei-me, por isso coloco-o aqui, à disposição dos amigos.
Escrito por Adoradora às 14h53
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SATISFAÇÃO (CONTO)

Aos 12 anos teve que aprender a se virar só. Era um deslocado naquele mundo em que vivia e tinha que suportar sem engulhos a idéia de que simplesmente não se encaixava em nada, em grupo algum. Maduro demais para as brincadeiras infantis dos que tinham sua idade. Novo demais para as conversas adultas em bares dos amigos dos pais. As pessoas ou eram infantis, ou velhas. Sem meio-termos. Ele próprio desprezava esse meio-termo inexistente.
Refugiou-se desde muito cedo em seu universo, onde a literatura era a rainha, a fuga. Não se imaginava no papel daqueles personagens que lhe faziam companhia no passar dos dias, não; era lúcido demais para soltar a imaginação a tal ponto. Apenas lia, sem preocupar-se em reter sabedoria. Lia, para passar o tempo. Lia, para que o deixassem em paz. E o deixavam, nesses longos momentos em que usava o livro como escudo contra o mundo que ele não compreendia, e que não o compreenderia. Quem poderia?
Tudo o que ele queria era a solidão. De verdade. De tudo. Amizades, família, namoradas, nada o comovia, nada o fazia despertar algum interesse. Não queria a morte, queria viver, mas só. Ainda amava a vida, o que podia parecer um paradoxo, mas amava aquela vida, não esta outra.
Foi assim a vida toda, e continua. Hoje, reavaliando seus 37 anos passados meio que em branco para a sociedade, e meio que em preto para si mesmo, não tem arrependimentos. Aliás, tem um único: o de ter por algumas vezes se submetido às regras do bem-viver da sociedade por razões que ele nunca chegou a entender. As festas de fim de ano em família, os aniversários comemorados com colegas que não lhe acrescentavam nada, namoros prolongados à revelia... Afinal de contas, porque diabos tinha feito essas bobagens? Tá, tá, deixa pra lá. Passou e pronto, não faz mais.
Um ser anti-social - assim ele é definido pelos outros. Rótulos, merda. Podem chamá-lo do que quiser, ele decidiu não mais lutar contra sua natureza instrospecta. Mais um rótulo. Ele quer viver para a sua leitura, para seu mundo, o único em que se sentia realmente feliz... não, feliz não. Em paz. Tranquilo. Bem. Mas feliz não. O que é felicidade?
O Cara não quer mais nada, enjoou. Deixem-no só, ele quer e merece. Que mal há nisso? É esta a forma que ele tem de viver, a única contribuição que quer deixar para essa sociedade incompreensível. Não pretende destilar seus venenos por aí. Não almeja reconhecimento, nem intrigas. Deixem-no.
Não é mais o menino de 12 anos, não é sequer o homem de 37. Não se define, não sabe onde se colocar nesta ordem cronológica. E daí? O que isso importa, e a quem, e porquê? Não, apenas convenções não realizadas, frustração para os curiosos.
O Cara é. E se basta.
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Ana Cláudia Nogueira
Escrito por Adoradora às 09h23
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